20260325
Crato, 25 de março de 2026
Olá, leitores.
Vou aqui tentar escrever mais um texto que estou chamando de diário extra, conectando o lugar onde estou, no Crato, com outros que acompanho por essa janela que é a internet. Janela que a gente pode apontar para coisas boas, mas somos tentados a apontar para o que não presta.
Primeiro quero contar uma cena que aconteceu há pouco mais de quarenta dias, quando alguns colegas adolescentes voltavam para Caldeirão Grande, no Piauí, depois de conseguir vaga no Campeonato Brasileiro de Judô Região II. Simplesmente eles foram recebidos com fogos. Isso foi muito emocionante.
Outra coisa que me chamou atenção foi quando os Jogos Olímpicos de Inverno acabaram e eu fui assistir ao primeiro jogo do time que eu tinha acabado de escolher. Era um jogo em casa, em Vancouver, no Pacific Coliseum. Uma arena olímpica que foi usada nos jogos de 2010 e que era usada pelo time masculino de hockey, mas ficou ultrapassada para eles, e eles se mudaram para uma arena mais moderna. Agora que surgiu um time feminino profissional na cidade, mesmo no todo-poderoso Canadá, hockey no gelo feminino é uma atividade principalmente amadora. As meninas, mesmo indo ganhar medalha de ouro nos Jogos Olímpicos, não conseguiam viver só do esporte, precisavam trabalhar em outra coisa.
Mas estava eu assistindo meu primeiro jogo e houve um minuto de silêncio para homenagear um senhor da comunidade. Nos jogos de futebol, minuto de silêncio é algo comum, e a característica principal é que as torcidas continuam gritando. Mas em Vancouver, o minuto de silêncio realmente é em silêncio. Pode não parecer impressionante, mas eu fiquei impressionado.
Outra coisa que está na minha cabeça: uma vez, o Jô Soares entrevistou um coveiro que, entre várias histórias, se eu não me engano, foi para lá porque tinha acabado de se graduar em filosofia. Mas Jô ou detestava filosofia ou sabia que a audiência tinha preguiça de pensar; fato é que não teve pergunta nenhuma sobre filosofia. Mas teve uma história sobre como os torcedores do Corinthians não deixam de assistir ao jogo de seu time por causa da morte de um parente.
Eu assisti ao primeiro jogo das Vancouver dia 1º de março. Depois foram mais quatro jogos em Vancouver. Ontem, dia 24 de março, foi o sexto jogo que eu assisti e o primeiro “on road”, como eles chamam os jogos fora de casa. Não sei se vocês viram o finalzinho do meu último texto, mas ontem a Gata Lua, que teve leucemia diagnosticada há cerca de um ano e meio, morreu. Então, esses primeiros 24 dias torcendo pelas Vancouver foram os últimos 24 dias de vida da Gata Lua, que não foram fáceis.
Hoje eu pude organizar minha cabeça. Abri o Paint e desenhei um cronograma de tarefas. A bagunça que a Gata Lua fez, e que eu mesmo fiz nesses dias, ainda não organizei.
Mas ontem, depois de ver que ela tinha morrido, acrescentei um post scriptum no meu texto e publiquei. Depois posicionei o corpo dela em lugar à prova das formigas, que já vinham se aproximando, e fui dormir. De manhã, minha mãe enterrou o corpo. Eu fiquei vivendo meu luto. Avisei no judô que não ia conseguir ir. Fui à missa, mas cheguei atrasado e não comunguei. Às oito horas, fui assistir ao meu jogo.
O último jogo tinha sido esquisito, porque a Gata Lua estava muito mal. Tinha uma paternalista me hostilizando, e foi mais uma derrota em casa. Ontem, não tinha mais a Gata Lua sofrendo, mas isso foi mais estranho ainda.
Primeiro jogo fora de casa, ou “on road”, depois de cinco “on home”. Eu estranhei tudo: a arquibancada, a torcida, o alambrado, os patrocinadores, o gelo, a posição das câmeras e a cor do uniforme das jogadoras — branco depois de cinco jogos de azul. Era enfrentar as líderes da competição na casa delas. Elas vieram com o pé no freio, se poupando, mas isso já foi suficiente para manter o zero a zero até a metade do segundo terço. Nesse momento, uma zagueira adversária chutou uma bola quase do meio da quadra e, curiosamente, ela seguiu numa trajetória indefensável. Depois apareceu que tinha sido o primeiro gol da carreira profissional dela.
O jogo seguiu um a zero. Faltando três minutos, meu time ficou com uma a menos. Isso é uma constante no hockey, quase tudo te deixa com uma a menos; não é dramático como no futebol. Quando os dois times ficaram com número igual de novo, faltava um minuto. A goleira ficou querendo sair, mas estava tomando muita pressão. Era melhor não ter saído. Vinte segundos fora, depois de cinquenta e nove minutos dentro, só para tomar um gol sem goleira e voltar para os vinte segundos finais. Placar: dois a zero.
Esse time foi montado para ser o mais forte, mas, por ser estreante, está sofrendo — normal. Normal para mim. Mas notei que já tem torcedor reclamando. As pessoas normalmente não entendem o que realmente está acontecendo, mesmo estando numa modalidade desde criança. Eu cheguei de verdade há vinte e cinco dias; não ouso dizer que já entendo, mas pelo menos sei que não.
O que eu queria dizer antes de encerrar: Vancouver só tem um time profissional de hockey feminino, um time com seis meses de vida, se não me engano, porque investiu por décadas no esporte amador. Não tem como ser diferente. Um time desses, no chamado primeiro mundo, fica o tempo todo pedindo dinheiro para projetos sociais. Eles parecem saber que dinheiro não cai do céu: você tem que trabalhar, ou, se não tem trabalho, tem que pedir.
Aquele primeiro minuto de silêncio que eu vi no primeiro jogo não foi o único. Teve outro, e esse chamou minha atenção, porque era para uma jogadora amadora que morreu de câncer. O esporte profissional, em silêncio, para mostrar respeito ao esporte amador, foi uma cena impactante. Tão impactante quanto os moradores de Caldeirão Grande recebendo de volta seus lutadores. Esporte amador é a base de tudo.
Hoje, aqueles lutadores vão viajar para o Brasileiro, na Paraíba. Eu sempre me confundo se algo que vai ser na Paraíba vai ser em Campina Grande ou João Pessoa. Deve ser em João Pessoa. Mas, independente, é uma viagem longa e importante.
Bom que é o Brasileiro Região II e o Piauí fica na Região I. Os três meninos de Caldeirão Grande vão lutar com o CE de Ceará nas costas. Vocês acham que o povo de Caldeirão Grande se importa com esse detalhe? O lugar de onde eles são vale mais que uma abreviatura na roupa.
De Iguatu vão sair dois lutadores, também adolescentes. Junto com esses cinco lutadores, vão três dirigentes. Vocês podem acompanhar tudo isso pelo Instagram da minha equipe.
Bom que eu não pude ir para o judô ontem, mas mesmo assim tinha sete alunos. Isso é muito bom. Uma aula de judô não funciona muito bem com mais de dez alunos, mas, se aparecerem mais, outras turmas podem surgir. Venham nos conhecer. É perto do Centro Cultural. A única turma adulta, por enquanto, está sendo terça e quinta, às 19 horas.
É isso. Vamos apoiar nossos amadores. Talvez um dia eles virem profissionais, ou não. Mas merecem apoio igual.
Pix: diegosergioadv@gmail.com
Até.
PS: Percebi que não falei da Carta Magna. Mas eu falo outro dia. É um assunto importante demais para um dia só.





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