Semana de Colação de Grau

        São Paulo, dia 1º de outubro de 1992. Oito horas da manhã.

        Aqui estou mais um dia sobre o olhar sanguinário do vigia...




          Mentira. Vamos começar direito.







        Crato, 24 de agosto de 2025 (domingo), dez da noite.



      Eu não sou detento. Sou um advogado que luta judô e escreve textos. Não necessariamente nessa ordem.

        Mas segunda-feira eu estava começando minha terceira semana de aulas na faculdade de Educação Física. Infelizmente, a maioria das aulas é na faculdade de Pedagogia. Isso me irrita muito. Eu preferia assistir aula na arquibancada do ginásio, debaixo de uma árvore ou no meio da rua, do que na faculdade dos outros. Mas não sou eu quem decide.
        Na semana de acolhida, os veteranos ficavam dizendo: "Aaaaai. Porque vocês vão se acostumar a ficar na Pedagogia. Vai ser o point de vocês."
        "Hoje a atividade é no Ginásio, mas a chamada vai ser feita lá na Pedagogia porque é nosso lugar de reunião."
        "Aaaaa, teve uma vez que o povo da História jogou paus e pedras em nós para nos tanger da faculdade deles."
        Claro. Ninguém gosta de um sem-teto.
       Eu vou para Pedagogia e Ciências Sociais achando ruim. Só vejo a hora os donos da sala aparecerem com paus e pedras para me tanger. Parece que o povo desses dois cursos não é tão territorialista. Mas eu continuo não me sentindo confortável.
    Eu tento, sempre que possível, chegar na Universidade pelo Ginásio. Mesmo que a aula seja na Pedagogia. Eu vou pelo Alto da Penha, aí desço pelos batentes da Grota, contorno o cemitério e passo pelo Parque de Exposições.
        O Crato é uma das poucas cidades do planeta que tem uma feira agropecuária dentro da cidade. Nós, cratenses, somos levados a nos acostumar com o cheiro de curral ainda bebês. Quando eu estava cursando Direito, os meus professores vieram com a notícia de que o governador ia transformar o Parque de Exposições em campus da Universidade, e que não havia nada que alguém pudesse fazer para impedir. "Finalmente, a Educação Física teria salas de aula." Alguém falou. Mas quando o governador discursou isso para o povo e foi vaiado e xingado por vários minutos ininterruptos, ele desistiu da ideia e, em vez disso, reformou o Parque de Exposições.
        Eu passo pelo Parque de Exposições e saio na calçada do Ginásio. Quando eu ia chegando na segunda-feira com meu arco de ginástica rítmica — o professor disse que era para enfeitar para um concurso — eu enfeitei, mas aí não teve o concurso. Não vejo a hora de ter essa merda desse concurso para eu arrancar os enfeites e deixar no preto.
            Mas quando eu ia chegando no Ginásio, a aula de Ginástica é lá. Ginástica no Ginásio. Parece óbvio, né?
           Quando eu ia chegando, tinha um povo esquisito na calçada do Ginásio olhando para o meio da rua. Eu pensei: "Que ônibus esse povo tá esperando aí antes das oito da manhã?"
            Pois quando foi nove da noite da mesma segunda-feira, eu ainda estava no mesmo Ginásio. Eu sou um dos poucos que fica até tão tarde. É uma experiência muito interessante ficar com pouquíssimas pessoas em um Ginásio imenso.
        Mas então, às nove da noite da segunda-feira, além de nós que normalmente ficamos lá, estava ainda o povo que antes das oito da manhã estava na calçada. O professor do Grupo de Pesquisas — que é chamado de Grupo de Estudos — me perguntou: "Quem é esse povo?"
        Ao que eu respondi: "Sei lá. Só sei que, quando eu cheguei antes das oito da manhã, eles já estavam por aí."
        O professor replicou: "É o povo da colação de grau."
        Pois foi. Essa semana teve colação de grau na quinta-feira. Por causa disso, a gente treinou na quarta em vez de na quinta.
        Mas eu não vou falar de colação de grau hoje, não.
        Eu tinha comentado com o pessoal do Grupo de Estudos que nem um professor meu tinha faltado nas duas primeiras semanas. Eu falei isso porque sabia que isso não ia durar para sempre. E nessa terceira semana, três professores faltaram. Três de cinco. Mas isso não é uma tragédia tão grande. Pelo menos para mim não é. Parece que, para quem mora longe, isso é mais complicado.
        Na segunda-feira, nem um professor faltou.
        Na terça-feira ia haver um evento sobre lutas, patrocinado pela Secretaria de Educação do Município, para professores de Educação Física. Começou nas Ciências Sociais e depois houve uma aula prática no Ginásio: aula de Muay Thai, ministrada por um colega do Grupo de Pesquisa.
      Eu saí antes, para me preparar para aula de Fisiologia, que terminou nem acontecendo. O professor estava doente.
    Minhas vivências com as lutas estão muito ligadas ao Meu Fliperama, um sistema pedagógico que eu criei. Quando eu vou jogar videogame, eu jogo até sentir que estou rendendo. Se não estiver, guardo as fichas para jogar outro dia. Eu encaro as lutas assim. Não deixo de ir para um treino só por notar que não vou conseguir treinar ele inteiro. Porque, se fosse assim, eu não iria para nada. Raramente eu consigo terminar os treinos.
        Eu coloquei o Meu Fliperama em um pendrive e estou pronto para mostrar para qualquer um, desde que estejamos próximos de um computador.
        Foi uma semana muito boa. Pode não parecer, considerando as partes que eu contei. Mas foi boa sim.
        As horas na Pedagogia e nas Ciências Sociais são tristes. Mas as horas no Ginásio fazem valer a pena.



            Até.


            Se gostou desse texto me incentive a escrever mais:


            Pix: diegosergioadv@gmail.com



           




Pix: diegosergioadv@gmail.com

Pratico judô e  sou atualmente 3º kyu (faixa verde). 
Estou sem equipe.
Pretendo lutar na Copa Samurai dia  18 de outubro, mas para isso preciso encontrar uma equipe e gastar com a transferência.
Curso Educação Física na Urca.
        Estou planejando um projeto de judô inclusivo chamado Judô no Escuro. Pretendo ir contando mais com o passar do tempo. 


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Duas semanas de aula

20250727