20260319

            Crato, 19 de março de 2026.






  Ontem fui à missa às seis e meia da noite.
  Terminei indo dormir às duas horas da manhã.
  Acordei às seis horas e já fui para a missa das seis e meia da manhã.
  Depois do almoço fiquei no computador até cansar, depois fui dormir. Acordei às quatro e cinquenta. Ainda tentei ir para a procissão de São José. Terminei encontrando minha mãe vindo. Ela foi para a missa lá no Seminário São José, mas não foi para a procissão. Quando eu a encontrei, ela disse que a procissão já ia longe. Eu não conheço tão bem o bairro, não ia conseguir acompanhar.

  Mas este texto é mais para falar do motivo de eu ter ido dormir de madrugada: hóquei no gelo.

  Vou fazer um retrospecto da minha relação com essa modalidade até aqui. Quando eu era criança, assisti a alguns desenhos animados e filmes sobre essa modalidade. Tinha um filme em que o cara ficava treinando em um saco de pancadas, porque só queria voltar da aposentadoria se tivesse condições de nocautear um rival. Hoje sei que isso é besteira. Trocas de socos fazem parte do hóquei, mas não ao ponto de alguém ficar treinando e preocupado com isso. Jogador de hóquei treina para fazer e evitar gol. As trocas de soco são improvisadas.

  Em dado momento, quando eu decidi que ia ser escritor, eu decidi que ia investigar um dos lugares sobre o qual Fiódor Dostoiévski escreveu: São Petersburgo. A partir dessa investigação, terminei lendo sobre hóquei no gelo. Sobre um time de Helsinque, na Finlândia, que tinha abandonado a liga finlandesa e se bandeado para a liga russa. Hóquei é muito caro. Mesmo para países frios, ainda é caro. Por isso as principais ligas precisam ser internacionais. E, em alguns momentos, ficam essas brigas, de uma liga de um país tentando atrair um time de outro país. Mas espero que vocês entendam: o time não muda de sede por isso. Ele continua mandando seus jogos como dono de casa em seu país, mas viaja para o estrangeiro para jogar fora de casa.

  Mas então. Nesse momento eu tentei assistir a jogadas. E não vi a cor da bola. Eu achava que, para ver a bola — que na verdade é um disco —, eu precisaria de um telão. Aí eu me desinteressei.

  Passou o tempo. Eu comecei a interagir com uma moça que nasceu em Hong Kong, mas mora em Edmonton. E eu tinha ouvido uma youtuber chamada Tatiana Feltrin falando sobre quadrinhos canadenses e a importância do hóquei no gelo na cultura deles. Resolvi seguir o time do Edmonton Oilers nas redes sociais. Mas os jogos nunca passam em lugar nenhum aqui no Brasil. Lá certamente passam. Para não dizer que não passam em lugar nenhum, dá para assistir pelo rádio. Mas aí já é demais. Assistir a um esporte que você não entende nada, em uma língua que você entende muito pouco. Essa opção eu nem tentei.

  Mesmo seguindo o Edmonton Oilers no Twitter e vendo postagens, eu continuava não vendo a bola.

  Um dia, os ucranianos postaram um resultado de um jogo da seleção deles. Nesse dia eu decidi contar a situação a um chat de IA. Ele então disse: “Não tente ver o disco. Olhe para o gesto dos jogadores.”

  Aí eu fui ver os melhores momentos do jogo da Ucrânia com isso em mente. Comecei a entender o movimento pela intenção dos jogadores, mas em poucos segundos o disco apareceu. Me senti Gohan na luta contra os saiyajins.

  O Edmonton Oilers continuou inacessível. Mas vi que havia jogos inteiros de seleção postados no YouTube. Eram jogos velhos.

  Só que, este ano, havia esperança de transmissão dos Jogos de Inverno. Motivado por isso, comecei a assistir a jogos de seleção dos Jogos Olímpicos passados. Quando eu descobri que a liga masculina do Canadá e dos Estados Unidos da América não tinha mandado jogadores homens para os jogos passados, terminei de me decepcionar com essa liga e com os Oilers. Não mudei de time dentro daquela liga, mas desisti de tentar acompanhar. Passei a assistir a jogos de seleção feminina.

  Aí eu percebi várias coisas. As meninas usam capacete com máscara e, por isso, terminam batendo muito mais umas nas outras do que os meninos. Realmente há nocautes no hóquei masculino. Essa parte aquele filme besta não inventou. Mas são raros, porque na prática eles se socam bem pouco. Já no feminino é soco toda hora. Quando são duas seleções que não se gostam, então, como Suécia e Alemanha, aí é soco de instante em instante.

  Mas chegaram os Jogos Olímpicos e os jogos realmente foram transmitidos no YouTube, pela Globo e pelo Cazé. E eu assisti a vários femininos, da fase de grupos e todos da fase eliminatória.

  Ainda na fase eliminatória teve um jogo entre Alemanha e outro time, talvez França, nem lembro agora contra quem realmente era, que foi para a prorrogação. É com morte súbita: quem faz o gol ganha.

  Nisso, uma zagueira da Alemanha chegou chutando de trás, fez o gol da vitória e comemorou com tanta sinceridade que eu decidi pesquisar onde ela jogava. Ela se chama Jobst-Smith. Nasceu na Inglaterra, filha de pai inglês e mãe alemã. A família foi morar em Vancouver, no Canadá, quando ela tinha três anos. Um sarapatel de origem. Então, embora defenda a Alemanha, ela considera Vancouver sua cidade lar. “Home town”. Um termo que a gente em português nem usa.

  Lembrei que essa semana tinha um rapaz de Farias Brito falando mal de Max Petterson, dizendo que ele não fala com o povo de Farias Brito. Deve ser mentira, porque, quando eu encontro ele na rua, ele fala comigo. Certo que eu sou do Crato. Mas, enfim. Aqui a gente fica nessa. Mas é de Farias Brito, do Crato, de Fortaleza ou de Paris? Não sabemos. Não existe o termo cidade lar.

  Mas lá, onde o povo fala inglês, a pessoa diz: “minha home town é tal” e pronto. Ninguém contesta isso.

  Mas então. Jobst-Smith, que se diz cidadã de Vancouver, teve a sorte de ser draftada para jogar no time profissional recém-criado de Vancouver.

  Quando eu era adolescente, eu assistia a uma série chamada iCarly. Envelheceu muito mal, mas na época era assistível. A protagonista era uma colegial e morava com o irmão adulto em Seattle, nos Estados Unidos da América. Quando ela estava triste, o irmão chegava e dizia: “vamos para Vancouver tomar sorvete?” E eles subiam na moto para ir para Vancouver, no Canadá, tomar sorvete.

  Então eu pensei: vou torcer por esse time de Vancouver, Vancouver GoldenEyes.

  E assim fiz. Mas acontece o seguinte. Essa liga está na terceira temporada. Começou com seis times relativamente próximos uns dos outros. Mas se expandiu. Criou dois times, subindo para oito. Esses dois times que surgiram foram exatamente Vancouver e Seattle. Por serem mais novatos, esses times estão sofrendo. Estão em sétimo e oitavo no campeonato. Então comecei já torcendo por um time em dificuldade.

  Assisti a três derrotas. As transmissões são no YouTube, de graça. Duas das derrotas foram na prorrogação, o que ainda dá um ponto.

  De ontem para hoje tinha jogo de novo, começando às onze da noite, contra o time que dizem que é de Nova York, mas que na verdade é de Nova Jersey, que é como se fosse a Nova York dos pobres. O jogo era em Vancouver. Todos os jogos que assisti agora foram em Vancouver. O time joga um monte de jogos em casa, depois um monte de jogos fora de casa.

  Foi muito insano esse jogo de ontem, que terminou hoje. Meu time começou fazendo dois a zero muito rápido, mas as adversárias diminuíram. Um gol só na frente no hóquei é muito tenso, é muito mais fácil de empatar do que no futebol de campo.

  O jogo tem uma hora de bola rolando, com o cronômetro parando quando a bola para. É dividido em três terços de vinte minutos, com intervalos de pelo menos quinze minutos. Nos dois intervalos dormi e acordei com despertador para continuar assistindo.

  Meu time fez três, elas encostaram de novo para três a dois. Só perto do final saiu o quarto. Faltando dois minutos, as adversárias tiraram a goleira e tomaram o quinto. Terminou cinco a dois, mas não foi tão fácil quanto três gols de diferença fazem parecer. Foi a primeira vitória que eu acompanhei, e foi uma experiência maravilhosa.

  No mesmo dia o Vasco ganhou do Fluminense no futebol. Mas assistir custa dinheiro, ou tempo para sair pelos bares atrás de uma televisão, ou você precisa recorrer à pirataria. Não tenho saco para nada disso. O hóquei no gelo é esporte profissional, pelo menos por enquanto, de graça para assistir. Está sendo muito bom. Mesmo as derrotas são boas experiências no geral, mas claro que vencer é muito melhor.

  O próximo jogo é sábado. É de dia, não vou precisar assistir na escuridão da minha casa sem luz. Ainda estou com problema na instalação elétrica e não há previsão para resolver. Mas pelo menos encontrei esse alento. A temporada regular logo acaba, mas pretendo seguir acompanhando essa modalidade.

  Até. Segunda publico um texto mais convencional sobre meu cotidiano no Crato, mas fica este texto sobre minha janela para Vancouver.



   

         

Quadriga 




Represento a Dojo Solo

Pratico judô e sou atualmente 2º kyu (faixa roxa). 
Para conseguir a faixa preta, vou ter que desembolsar uma grande quantia em dinheiro. De fevereiro a agosto do ano que vem, algo em torno de dois mil e quinhentos reais. 
Dividi a taxa de exame em três vezes no cartão. 
Dividi parte do gasto com a viagem para o Piauí em três vezes no cartão também.
Treino na Formas Fit.
A mensalidade das aulas de judô custa setenta reais.
Estou treinando para lutar em Palhano dia 2 de maio;


Curso Educação Física na URCA.
       Estou planejando um projeto de judô inclusivo chamado Judô no Escuro. Pretendo ir contando mais com o passar do tempo.

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